• Angela Cristina Ribeiro – Psicóloga - CRP06/74640

Tipos Psicológicos e Desenvolvimento de Lideranças

Atualizado: 25 de Nov de 2020


Há sempre uma distância entre o pensamento e a ação e muitas vezes no tempo percorrido entre a ideia criativa e sua execução prática a motivação escorre pelos dedos e se esvai a oportunidade do desenvolvimento de uma boa proposta.

Por vezes observa-se o nascimento de ideias e proposta, mas não a observamos na prática, não se desenrola em atuação concreta. Ao contrário, o que se vê são as dificuldades de organização, mobilização e participação.

É sabido o quão importante é refletir sobre a formação de lideranças, pois uma vez no exercício desta, tem-se de propor por meio de técnicas especificas a mobilização de pessoas em prol de uma causa.

Abordaremos, partir da perspectiva junguiana, os perfis psicológicos de liderança e quais as virtudes necessárias para o desenvolvimento do líder, a fim de que, este mobilize pessoas para a causa, a potência e desenvolvimento.

Tipos psicológicos e desenvolvimento de liderança.

Cortella descreve que liderança envolve responsabilidade e está não se tornará um fardo desde que haja entrega, consciência e amorosidade pela causa. Contrariamente, é tarefa agradável quando há discernimento frente suas atividades e tendo prazer em desenvolvê-las. (CORTELLA, 2017).

Um líder “suficientemente bom” (termo utilizado por Winnicott, para exemplificar a não necessidade de perfeição nas atitudes) deve perseguir algumas virtudes. Não em busca de perfeição, mas com consciência da necessidade de enfrentamento para o desenvolvimento.

Freire, traz a ideia de que somos seres inacabados, ressaltando mais uma vez a não perfeição, antagonicamente, quanto maior a compreensão de nosso inacabamento, maior abertura para o aprendizado e o desenvolvimento. (FREIRE, 1987).

Cortella (2017) lança mão de personagens mitológicos para propor a ideia de que o líder tem um determinado perfil, no entanto, faz-se tarefa do líder desenvolver e saber atuar trazendo outras posturas.

Assim, trata do pensamento Apolíneo e Dionísio e descreve:

O pensamento apolíneo é o pensamento da lógica, da razão, do intelecto. Apolo vai ser o deus dos métodos, dos gráficos, dos índices, dos controles. O deus Dionísio é o deus do teatro, da festa do vinho. Dionísio seria responsável pelo pensamento da paixão, pelo êxtase, pela motivação e até por fatos que hoje são muito caros às organizações, como, por exemplo, a criatividade e a inovação. (CORTELLA, 2017, p. 104).

Refletindo, ainda, sobre a incompletude humana, discorreremos sobre os conceitos junguianos de tipos psicológicos. Jung, psicólogo e fundador da psicologia analítica considera que o ser humano desenvolve um jeito predominante de transitar pelo mundo.

Define, então, que o individuo pode se direcionar para o mundo a partir de um perfil dominante, assim descreve: “fundamentado em muitas observações e experiências, cheguei a apresentar dois tipos básicos de comportamento ou de atitude, ou seja, a introversão e a extroversão” (JUNG, 2013, p.55).

Os extrovertidos são caracterizados por: “ser afável, aparentemente aberto, de boa vontade, se adapta bem em qualquer situação, se relaciona facilmente com pessoas e, não raro, se lança despreocupado e confiante” (JUNG, 2011, p. 53) o perfil extrovertido é maioria entre os brasileiros. Já o introvertido “é caracterizado por um ser hesitante, reflexivo, retraído, que não se abre com facilidade, que se assusta com os objetos e está sempre na defensiva, gostando de se defender por trás da observação desconfiada” (JUNG, 2011, p. 53).

Além das duas atitudes psicológicas (extrovertida e introvertida) Jung define 4 funções: pensamento, intuição, sensação e sentimento. Assim, a definição da atitude e função psicológica predominante no desenvolvimento psíquico do individuo determinará sua tipologia ou perfil psicológico.

Exemplificando, a pessoa poderá ser um tipo de atitude introvertida e função predominante pensamento ou atitude extrovertida e função pensamento ou atitude introvertida e função sensação, desta forma combinando as funções e atitudes forma-se os 16 principais tipos psicológicos.

De forma rústica o tipo intuitivo seria o criativo, aquele que cria a ideia; o tipo pensamento seria aquele que planeja o necessário para a execução da ideia; o tipo sensação seria aquele que organiza e executa a proposta e por fim, o tipo sentimento é aquele que dá o valor à ideia.

O tipo pensamento caracteriza-se por valorizar a lógica, são questionadores, críticos e impessoais. Racionais, analistas, imparciais e justos em seus julgamentos porque tomam decisão com base em fatos e dados lógicos, normalmente, são estratégicos.

Pessoas que valorizam o sentimento e o valor das coisas são do tipo sentimento são pessoais e informais. Emitem juízo de valor pessoal, tipo gosto ou não gosto. Normalmente fazem amizades com facilidade, são muito sociáveis e bajuladores. Mostram-se receptivos e tem facilidade nas interações interpessoais.

O tipo sensação avalia a partir dos órgãos sensoriais, dedicam-se a dados concretos, são observadores, rotineiros e organizadores. São pessoas estáveis e convencionais, atentos aos detalhes.

O tipo intuição utiliza-se da percepção global, captam os padrões gerais da situação, valorizam a imaginação e a inspiração. Criativos e inovadores são desenvolvedores de ideias arrojadas.

Porque falarmos de tipos psicológicos e liderança? É fundamental compreendermos as diferentes formas de funcionamento para respeitarmos as diferentes ideias e formas de agir, a partir desta compreensão é possível exercemos atitude empática na relação com o outro.

Um líder que conhece o perfil psicológico de sua equipe, provavelmente será mais assertivo ao organizar um projeto, pois poderá direcionar ou permitir que as pessoas se direcionem para desenvolverem atividades, as quais, o individuo poderá lançar mão das melhores habilidades de acordo com seu perfil.

Poderá, ainda, de forma consciente se desafiar para desenvolver atividades cuja competência necessitará ser lapidada.

Quando refletimos os tipos psicológicos em uma equipe, há a observância do quão necessária é esta diversidade. Conforme já descrevemos cada tipo desenvolve com melhor destreza uma determinada atividade.

Desta forma, favorecendo a diversidade de perfis psicológicos, provavelmente, a equipe terá completude. Uma equipe, a qual, todos os membros sejam de um determinado perfil, enfrentará mais adversidades na execução das tarefas.

É exequível que isto aconteça, pois membros que não se sentem pertencentes, consequentemente, não se envolvem com a causa e acabam por não opinar, contribuindo que prevaleça os perfis dominantes.

Assim, um bom líder tem que estar envolvido e encantado com a causa, haja este envolvimento e prazer, tem-se tempo hábil para gerir e agregar as tarefas. Os líderes “deixam claro o que estão pensando, quais suas ideias, seus sonhos, enfim, sua visão de futuro”. (CORTELLA, 2017, p.30).

Ou seja, quando há integridade na liderança a tendência é que a comunicação seja clara e envolvente, de forma espontânea porque é verdadeira, como descreve Cortella:

O líder é aquele que faz com que as pessoas se sintam abraçadas por ele. Assim, todos juntos abraçam uma causa e dobram-se sobre ela. O líder só consegue fazer isso se tiver legitimidade. Entendendo que o líder é o indivíduo que, acima de tudo, provoca mudanças. (CORTELLA, 2017, p.33).

No entanto, propor-se a participar de uma liderança que mobilize pessoas é tarefa árdua, pois para essa convivência é necessário que enfrentemos, como descreve Cortella (2017) nossos inimigos internos.

Os inimigos internos são, em primeiro lugar, a ignorância, o não saber, o deixar de se interessar, de ser curioso. Em segundo lugar, a indolência, em terceiro lugar, é o que você chamou de soberba e eu chamo de arrogância; é a crença na superioridade, em que não se precisa do outro, em que se sabe tudo. E em quarto, está o medo, não o medo que é alerta contra o perigo e sim o medo que paralisa. (CORTELLA, 2017, p.140).

Enfrentar os inimigos internos é tarefa de “hércules” para o ser humano, é investimento no autoconhecimento, tão pouco valorizado em nossa cultura.

Crescer emocionalmente requer ter consciência, reconhecimento do que se tem em si no outro, deixar cair por terra aspectos ruins e sombrios que, voluntário ou involuntariamente, lançamos ao outro. Começar a entender que eles também pertencem a mim.

Assim, o desenvolvimento do bom líder está intimamente relacionado com o desenvolvimento de um ser humano íntegro, integridade que alcançamos no processo de autoconhecimento que propõe o enfrentamento do medo da avaliação, da rejeição, da autonomia, da imagem etc.

Conforme abordagem junguiana é tarefa do ser humano buscar o equilíbrio das funções, para que haja um processo de individuação que é a maturidade psicológica do indivíduo, maturidade que acontece no momento em que se propõe enfrentar as vicissitudes da vida, encarando seus “monstros internos” e seus medos, estes enfrentamentos permitem ao sujeito que transitem pelo mundo de forma mais congruente.

Referências

CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. São Paulo: Cultrix, 2007.

CORTELLA, Mario Sergio. Liderança em foco. Campinas, SP: Papirus, 2017.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Paz e Terra: RJ, 1978.

JUNG, Carl Gustav. Psicologia do inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2013.

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