• Angela Cristina Ribeiro – Psicóloga - CRP06/74640

As Feridas do Feminino

Atualizado: 25 de Nov de 2020


Um rápido olhar nos índices da violência contra a mulher desvela a importância do tema. Aparentemente muito se fala do empoderamento feminino, mas uma análise dos índices nos mostra que eles se elevam quando o esperado seria a queda, já que o tema é atual e amplamente discutido. Assim, vê-se quão relevante é analisarmos as particularidades que envolvem a valorização e voz desse feminino.

Quando se trata de assuntos sobre o feminino implicitamente tocamos nas questões que diferenciam os gêneros, seja concernente aos aspectos psicológicos ou sociais.

Importante salientar que estas questões apenas caracterizam, individualizam um gênero do outro, porém jamais os tornam melhores ou piores, “não se pode afirmar que a mulher tem consciência inferior à do homem: sua consciência simplesmente é diversa da consciência masculina” (JUNG, 2018a, p.97).

No entanto, esta diferença não é entendida de forma simples assim. Normalmente, mesmo diante da atual sociedade que abre lentamente espaço para o feminino, encontramos olhares opressores e preconceitos que ainda veem o feminino como inferior.

Há séculos, desde que vivemos em uma sociedade patriarcal, existe um paradigma que entende o feminino de forma inferiorizada:

Desde épocas remotas, os homens têm manipulado as mulheres para resolver seus problemas sociais. A elas muito tem sido negado ou proibido. Essa repressão foi oportuna para que a situação de domínio se mantivesse imutável. Como vivemos em uma sociedade patriarcal ela ainda é conveniente. (PIRES, 2008, p.9).

É indubitável que diversas foram as conquistas do feminino como descreve Pires (2008) “no século XX as mulheres efetivaram algumas conquistas sociais: acesso ao mercado de trabalho, controle da natalidade, direitos políticos, direitos sexuais” (PIRES, 2008, p.11).

Contudo, ainda se faz necessária uma longa jornada para que as características do feminino sejam integradas plenamente a esta sociedade que, ainda é, estruturalmente, patriarcal.

As mulheres modernas se veem desempenhando uma gama maior de tarefas: “elas devem manter suas antigas atribuições e desempenhar novas tarefas, o que as obriga a viver em situação ambiguidade” (PIRES, 2008, p.11).

Falando um pouco das particularidades da psicologia feminina, abordaremos as questões sobre o prisma junguiano. Jung considera que o ser humano em sua completude tem características masculinas e femininas. Assim, os homens possuem faces do feminino e as mulheres faces do masculino, são os conceitos que na psicologia denominamos anima e animus. Denomina-se anima a parte feminina da personalidade do homem e animus a parte masculina na personalidade da mulher.

Para o desenvolvimento destas tarefas da modernidade a mulher lança mão de seus aspectos masculinos, podendo estabelecer uma parceria negativa com seus conteúdos anímicos.

Quando a natureza fértil do feminino é deixada árida e estéril, ou congelada sobre gelo e neve, o animus negativo reivindica sua vítima. Age de maneira autônoma, e nesse sentido esmaga o ego feminino agarrando-o com força. A mulher fica indefesa. A própria mulher não consegue diferenciar entre seu ego e o poderoso fator psíquico que lhe destrói a autoestima e a autoconfiança. (COBERTT, 2017, p 165).

Existe um avanço frente às particularidades do feminino, como já salientamos. No entanto, há paradigmas impregnados culturalmente nas consciências e inconsciências masculinas e femininas que reafirmam constantemente a desvalorização.

As mulheres são associadas a perigos e a degradação da carne, projetando-se nelas toda impureza. Eva é a encarnação da sedução sensual, a razão da ruína do ser humano, pois foi encantada por forças demoníacas e, por sua vez, tentou o homem. (PIRES, 2008, p.9).

Atualmente, são discutíveis essas noções de impureza e fragilidade feminina, no entanto, pensamentos como estes fazem parte do imaginário humano. Então resgatar e valorizar este feminino, mesmo pelas mulheres, envolve uma mudança de paradigma.

Por fim, resta à mulher aceitar a jornada, tornar-se consciente, tomar as dificuldades como oportunidade e promover transformação. Aceitando o desafio de não se tornar vítima de sua própria história a mulher pode valorar as características femininas, resgatando sua autonomia e realizando seu potencial evolutivo.

As mulheres precisam se tornar heroínas aptas a fazer escolhas em vez de serem passivas, ou vítimas-mártires, ou joguetes movidos por outras pessoas ou pelas circunstâncias. (BOLEN, 1990, p.219).

A mulher que vive conscientemente se apropria da vida e caminha com autonomia, como descreve Whitmont (1991) a mulher consciente estabelece uma comunicação com o Si-mesmo e passa a cuidar melhor de si. Compreende sua sensibilidade e força, tendendo a não aceitar mais situações de opressão, “não é governada por ideias abstratas do que ela deveria ser ou do que as pessoas vão pensar”. (WHITMONT, 1991, p. 27).

Faz-se relevante pensar nestes conceitos, pois as mulheres, as quais, enfocamos aqui, vivem distantes dos significados das vivências, do sentido de vida e das possibilidades do “vir a ser” em função da experiência de submissão e opressão que vivem.

Ambos os gêneros vivenciam os conteúdos anímicos de formas diferentes. Dessa forma, Jung (2018) descreve que a anima produz caprichos enquanto o animus produz opiniões. (JUNG, 2018a).

A anima e o animus podem ser vivenciados positivamente, desta forma, podem contribuir para o desenvolvimento de uma personalidade flexível, já quando experenciados de maneira negativa, o sujeito acaba por desenvolver uma personalidade unilateral e inflexível, como descreve Jung, 2008 “a personificação masculina do inconsciente na mulher – animus – apresenta, tal qual como a anima no homem, aspectos positivos e negativos” (JUNG, 2008a).

Em seus aspectos negativos o animus pode gerar na mulher “uma estranha passividade, uma paralisação de todos os sentimentos ou uma profunda insegurança que pode levar a sensação de nulidade e de vazio” (JUNG, 2008, p.255).

Assim, as mulheres que são tomadas negativamente por conteúdos anímicos sentem internamente como se houvessem vozes lhes dizendo continuamente “você não é capaz”.

Existem algumas palavras que o animus gosta particularmente – “deveria” talvez seja a mais importante destas – e há algumas afirmações que ele faz com mais frequência que outra. Por exemplo “Você não serve para nada... Você não consegue fazer nada direito... Os outros são melhores que você... Você está errada. (SANFORD, 2017, p.65).

Um dos desafios deste feminino, então, é identificar esses pensamentos autônomos para, desta forma, iniciar um diálogo com esse animus possibilitando vivenciá-lo positivamente. Dizemos que o pensamento é autônomo, pois surge à revelia, sem que se tenha a percepção do mesmo.

Discernir esses pensamentos é uma tarefa de “Hércules” para o feminino, uma vez que vivenciamos em nossa cultura a valorização do masculino, como descreve Sanford (2017) “esse ar de autoridade é estimulado por nossa cultura que tende a supervalorizar tudo o que é masculino e a desvalorizar o feminino” (SANFORD, 2017, p.67).

As realizações, o poder, o controle, o sucesso e a lógica, masculinos são recompensados em nossa sociedade, pelo prestígio, pelas boas notas na escola e por generosos presentes em dinheiro. O princípio feminino, que tende a unir e a sintetizar, é culturalmente desvalorizado tanto por homens quanto por mulheres. (SANFORD, 2017, p.67).

Essas questões são parte da tarefa feminina de resgate de autonomia, a empreitada é de enfrentamento de um animus autoritário e opressor, valorizando os aspectos do seu feminino e transformando este mesmo animus em parceiro para a jornada, assim poderá esta mulher vivenciar os aspectos positivos do animus.

Mas se ela se der conta da natureza desse animus e da influência que ele exerce sobre sua pessoa, e se enfrentar essa realidade em lugar de se deixar possuir por ela, o animus pode se tornar um companheiro interior precioso que vai contemplá-la com uma série de qualidades masculinas como, a coragem, a objetividade e a sabedoria espiritual. (JUNG, 2008, p.259).

De forma análoga o termo anima também tem o significado correspondente à palavra alma, cuidadosamente desvinculando o termo alma de conceitos religiosos; aqui alma significa o sentido da vida, “anima significa alma algo extremamente maravilhoso e notável” (JUNG, 2017, p.34, § 55).

Faz-se tarefa no desenvolvimento humano, tanto para o homem como para a mulher, a aproximação com a alma e com vivências providas de sentido e significado.

“com sua astúcia e seu jogo de ilusões a alma seduz para a vida para a inércia da matéria que não quer viver. Ela (a alma) convence-nos de coisas inacreditáveis para que a vida seja vivida” (JUNG, 2017, p.35).

Então as vicissitudes da vida permitem um possível posicionamento de enfrentamento, a prontidão e a possibilidade de aproximação da alma e do significado, desde que preparados para ouvir as mensagens anímicas, a escuta será possível e produzirá transformações, contribuindo para um desenvolvimento psicológico equilibrado.

REFERÊNCIAS

BOLEN, Jean Shinoda. As Deusas e a Mulher. São Paulo: Paulus, 1990.

CORBETT, Nancy. A Prostituta Sagrada: a face eterna do feminino. São Paulo: Paulus, 2002.

JUNG, Carl Gustav. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.

JUNG, Carl Gustav. Psicologia do inconsciente. Volume VII/1. Petrópolis: Vozes, 2011.

JUNG, Carl Gustav. O eu e o inconsciente. Volume VII/2. Petrópolis: Vozes, 2018a.

PIRES, Valéria Fabrizi. Lilith e Eva: Imagens arquetípicas da mulher na atualidade. São Paulo: Summuns, 2008.

SANFORD, John A. Os Parceiros Invisíveis. São Paulo: Paulus, 2017.

STEIN, Murray. O Mapa da Alma. São Paulo: Cultrix, 2006.

WHITMONT, Edward C. Retorno da Deusa. São Paulo: Summuns, 1991.

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