• Angela Cristina Ribeiro – Psicóloga - CRP06/74640

Os degraus da adolescência

Atualizado: 25 de Nov de 2020


“O adolescente é um viajante que deixou um lugar e ainda não chegou ao seguinte”. (Aberastury, 2011).

Tendo em vista a atuação com adolescentes faz-se sumamente importante a compreensão das mudanças e desafios específicos que envolvem este momento do ciclo vital. Como popularmente é conhecida à adolescência é a fase da “rebeldia” e é isto mesmo. Portanto vamos compreender melhor a rebeldia deste período da vida.

A rebeldia é o ato de não conformar-se com algo, de contrariedade. O ponta pé inicial da adolescência, que se dá por volta de 10 anos de idade, tem como primeira características o que denominaremos “rebeldias” corporais. Um corpo rebelde que independente do querer insiste em crescer.

Assim, as mudanças iniciais que dão o estalo da adolescência são as transformações corporais, que englobam o nascimento dos pelos pubianos, mudanças hormonais, a primeira menarca para as meninas e a primeira ejaculação para os meninos.

Estudiosos da fase denominaram “luto pelo corpo infantil” estas transformações corporais vivenciadas pelo individuo. Um “turbilhão” de hormônios invadem o corpo, provocando mudanças e, de repente, o sujeito se vê em um corpo estranho.

A “invasão hormonal” provoca também mudanças comportamentais, os adolescentes podem ficar mais sonolentos, agressivos, impulsivos, “aéreos”.

Concomitantemente, o adolescente vivencia também o “luto pelo papel e identidade infantis”, momento em que se tem de abdicar da dependência dos pais e caminhar rumo à independência e a autonomia e para isso começa a assumir algumas responsabilidades adultas, como realizar deveres sozinho, ajudar a família em algumas tarefas e outros.

Este é um momento confuso, pois a família algumas vezes exige responsabilidades adultas e em outros momentos trata-os como crianças. É muito comum que a família cesse alguns acompanhamentos por acreditar que o adolescente já possa ser responsável por suas atitudes, e algumas vezes isso acontece prematuramente , o que pode ocasionar prejuízos no desenvolvimento emocional do individuo, que naturalmente vivencia um tempo de tensão emocional e pode se sentir desamparado, intensificando suas angústias.

O terceiro grande luto é o “luto pelos pais da infância” momento de rever condutas e buscar ideologias para construir uma nova identidade. Neste momento se intensificam os chamados comportamentos “rebeldes”, pois é tarefa do adolescente se lançar socialmente buscando pessoas que sejam modelos/referências que estejam fora do ambiente familiar.

Estas novas referências fazem com que o adolescente conteste, frequentemente, as regras e condutas morais e sociais da família.

As referências familiares são baluartes na formação da personalidade, mas faz-se necessário para o crescimento psicológico do adolescente buscar diferenciação familiar. Neste momento o adolescente busca figuras substitutivas dos pais, normalmente, elegem pessoas como professores, artistas, líderes políticos ou religiosos, pessoas ao entorno que de alguma forma lhe cause admiração.

Frente à reflexão de que o adolescente busca constructos para a formação de sua identidade no “mundo externo” que é espaço social, comunitário e coletivo, abrimos um parêntese para refletir sobre o adulto e a sociedade em que vive o adolescente.

Como descreve Aberastury a busca do adolescente é o pertencimento ao mundo adulto “e os conflitos que surgem têm a sua raiz nas dificuldades para ingressar neste mundo e nas dificuldades do adulto para dar passagem a essa nova geração” (Aberastuty, p.89, 2011).

Na busca desse eixo condutor, os adolescentes podem encontram adultos que muitas vezes não apresentam atitudes e discursos coerentes. Jung, psicólogo analista, descreve que não é possível “educar para a personalidade se não tiver personalidade” (2013, p.182), percebemos, então, a relevância do vínculo dos adolescentes com pessoas congruentes, aquele que apresenta harmonia entre o discurso e a atitude, pois estas serão exemplo.

E, para além deste contexto micro (família e pessoas ao entorno), temos que observar o contexto macro (sociedade). O ambiente social influencia por demasiado no desenvolvimento do adolescente.

O filósofo coreano estudioso da sociedade do século XXI, Han, descreve que estamos transitando de uma sociedade disciplinar, para uma sociedade de desempenho. Conforme Han “a sociedade disciplinar ainda está disciplinada pelo não, sua negatividade gera loucos e delinquentes, já a sociedade do desempenho, ao contrário, produz depressivos e fracassados”. (Han, p.25, 2017).

Esta cobrança social por desempenho reflete no desenvolvimento do adolescente, que ainda não desenvolveu resiliência necessária para lidar com estas cobranças sem prejuízo. O impacto é observado no alto índice de adolescente que desenvolvem ansiedade, depressão, nas automutilações e no elevado número de suicídio na população adolescente.

A adolescência é um momento importante para o desenvolvimento físico, cognitivo e psicológico do ser humano e o Brasil galga índices epidêmicos de problemas no desenvolvimento mental dos adolescentes.

Entre os problemas mais comuns estão: os transtornos de ansiedade, os depressivos e as dificuldades sociais. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde estima-se que 20% das crianças e adolescentes apresentam algum problema de saúde mental. Algumas situações se agravam frente a vivências de violência, situação de pobreza, vínculos familiares rompidos e outros.

De acordo com Aberastury, 2011 o adolescente tem que vivenciar alguns enfrentamentos para que ele alcance o estágio da maturidade adulta. Algumas vivencias da adolescência tem características individuais e subjetivas para cada sujeito, mas apesar dessas vivências há etapas consideradas universais. São elas:

  • Busca de si mesmo

  • Tendência grupal

  • Necessidade de intelectualizar e fantasiar

  • Crises religiosas

  • Deslocalização temporal

  • Evolução sexual

  • Atitude social reivindicatória

  • Contradições sucessivas em todas as manifestações da conduta

  • Separação progressiva dos pais

  • Constantes flutuações do humor e do estado de ânimo

Cabe pensar, então, como favorecer e auxiliar os adolescentes nestas vivencias, considerando que a adolescência é por si uma etapa de transformações que expõe o individuo a situações vulneráveis.

Caso encontre amparo, informação e orientação nestes momentos vulneráveis diminuirá consideravelmente a probabilidade de desenvolver problemas emocionais e aumentará a probabilidade de que o adolescente suba os degraus do desenvolvimento satisfatoriamente.

Lipovetsky, autor do livro a Era do Vazio, afirma que a sociedade atual foi educada para o consumo e para as relações virtuais e, isto contribui para o aumento da angustia humana, das incertezas e das dificuldades psicológicas. Assim, um dos desafios para os adolescentes hoje é o desenvolvimento para as relações afetivas.

Referências Bibliográficas

Aberastury, Arminda. Adolescência Normal: um enfoque psicanalítico. Porto Alegre: Artmed. 2011.

Han, Byung-Chul. A sociedade do Cansaço. Petrópolis, RJ: Ed. Vozes. 2017.

Jung. Carl Gustav. O desenvolvimento da personalidade. Petrópolis: Ed. Vozes. 2013


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