• Angela Cristina Ribeiro – Psicóloga - CRP06/74640

A raiva em tempos de isolamento social

Atualizado: 25 de Nov de 2020


A frase “estou com muita raiva” está bastante frequente nos dias atuais, isto é compreensível. De repente muda minha forma de trabalhar, eu já não converso com tranquilidade com as pessoas, não vou à escola, não visito meus amigos, minha família, tenho que usar uma máscara no rosto que torna o simples ato de respirar difícil.


E, ainda, como se não bastasse temos que enfrentar um país desorganizado e pessoas insensíveis à situação, e a raiva vem porque eu me cuido, me informo, faço a minha parte enquanto outro caminha tranquilo e sem preocupação alguma de colaborar.


Diante disso tudo, a emoção de raiva aparece mesmo, então, a questão é como podemos compreender e conduzir a raiva.

Apesar da raiva ser uma emoção inata e universal, pouco falamos dela, porque culturalmente, ainda, compreendemos a raiva como uma emoção ruim e, desde muito cedo ensinamos as crianças que é feio ter raiva.

Há uma enorme inverdade nisso, e essa inverdade provoca dificuldades no psiquismo humano. Isso porque esse entendimento de que a raiva é ruim, faz com que a rejeitemos e acabamos por deixá-la no lado sombrio de nossa psique, reprimindo este conteúdo.


Conteúdo reprimido é tudo aquilo que porventura achamos inaceitável em nós, como a inveja, a maldade, a raiva e qualquer comportamento que de alguma forma nos causa asco. Mas querendo ou não eles estão em alguma parte de nossa psique 00e formam o que na psicologia junguiana denomina-se sombra.


Há muito mais na sombra, essa parte inconsciente da psique, mas não é o objetivo aqui conceitua-la o importante aqui é a compreensão de que esses conteúdos sombrios parecem estar quietinhos, mas não se iludam, eles têm movimentação psíquica e influenciam nosso comportamento sem que tenhamos percepção disso.


A raiva aparece também nos comportamentos explosivos, enfurecidos, agressivos, impulsivos, enfim, diversas são as atitudes em que a emoção implícita pode ser a raiva, mas normalmente a raiva externalizada “estilhaça” e atinge quem está na frente, podendo ocasionar diversas situações complicadas a pessoa.


Assim, conter ou externalizar a raiva não é uma boa forma de lidar com ela. O que fazer com a raiva então?


Estés, faz a seguinte proposta: convide sua raiva para um chá. Faça o convite sente-se ao lado e escute o que ela tem a dizer. Assim, é possível compreender porque ela nos visitou. (Estés, 2014).


Só possibilitando que a raiva esteja na luz da consciência é que poderemos compreendê-la e decidir o que fazer com ela. Conscientes de que a emoção que visita é a raiva, buscaremos compreender os motivos de seu surgimento e, assim ter autonomia para decidir o que fazer.


Agora conversar com a raiva não é simples assim, exige de nós o exercício de uma virtude que nos tem sido muito solicitada nesses tempos de isolamento social, a paciência.


A paciência é curandeira, ela não dá remédios rápidos, o processo é de maturação. Quando contemos nossa ansiedade, o desejo de cura rápida e soluções imediatas, o processo de maturação acontece e a mudança tem mais sentido.


Por fim, fica a dica, um bom exercício para tempos de quarentena, identifique a emoção prevalecente e converse com ela com paciência.

Referência


Estés, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com os lobos: Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.

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